Especialista tranquiliza sobre coronavírus em animais: ‘Não tem comprovação’
A questão que a especialista levanta é que não há elementos suficientes que justifiquem o estigma a ser construído sobre animais domésticos

A possibilidade de infecção pelo coronavírus tem assustado muita gente, e não é pra menos. Por mais que autoridades da Saúde digam que há vírus mais letais, como o H1N1, a gente se assusta mesmo com a proliferação da covid-19, da qual pouco se sabe ainda. Para coroar o alerta, nesta sexta-feira (28) foi divulgada a informação de que um cachorro pertencente a um paciente diagnosticado com coronavírus está em quarentena porque depois de detectada a presença do vírus no animal.
A doutora em Ciências Veterinárias Nádia Rossi tem uma recomendação diante desse cenário: calma. Membro da Comissão de Ética, Bioética e Bem Estar Animal do Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia e coordenadora do Laboratório de Viroses da Universidade Federal da Bahia (Ufba), a médica-veterinária explica que não há motivos para alarde, medo ou tensão.
“Não existe nenhuma publicação científica sobre esses dados. Onde encontramos essa informação é no site do Departamento de Agricultura, Pescados e Conservação de Hong Kong. O site fala que é um cão – e não é amostra significativa um animal só. Não foi falado sobre o teste que foi feito, mas falaram sobre a necessidade de refazer o teste. E ainda falaram de carga viral baixa”, detalha Rossi.
A questão que a especialista levanta é que não há elementos suficientes que justifiquem o estigma que pode ser construído em cima dos animais domésticos. Até porque, se o animal tiver mesmo sido contaminado pela covid-19, ficam os questionamentos: Um único animal no mundo é representativo? Qual a importância desse caso para a cadeia de transmissão?
De acordo com Rossi, os animais podem pegar o vírus e não transmiti-lo, da mesma forma que várias pessoas podem ser portadoras da carga viral e não serem um risco para transmissão. Por causa disso, não dá para tomar qualquer medida enquanto não houver informações suficientes.
“Não pode tomar nenhuma providência enquanto não sair estudo com amostra representativa, qual foi a técnica com que foi realizada, qual o protocolo utilizado, onde identificaram o vírus. E aí depois que confirmado, é preciso partir para estudos sobre se ele [o animal] transmite [o vírus]. Ainda falta muita coisa pra gente realmente achar preocupante. Até o momento, não tem comprovação científica nenhuma”, acrescenta.
Animais se contaminam por outros coronavírus
A cautela da médica-veterinária Nádia Rossi vai além da preocupação com o abandono dos animais diante do alarde sobre a transmissão pela covid-19. A especialista destaca que felinos, caninos e suínos podem ser contaminados por um coronavírus que não necessariamente é aquele que nos deixa em alerta. E esses diferentes tipos de vírus, por exemplo, geralmente não contaminam espécies diferentes.
“Os coronavírus são transmitidos entre eles. O felino é entre gatos e o canino entre cães”, explica Rossi.
Os coronavírus felinos são transmitidos por fezes de gatos, mas causa uma doença branda no animal. Alguns apresentam quadro de diarreia, mas nada grave. O que pode acontecer, de acordo com a membro do CRMV, é a mutação do coronavírus dentro do gato.
No caso dos cães, a transmissão do coronavírus canino pode se dar por fezes, causando diarréia, e via secreção nasal, que afeta mais o sistema respiratório. Neste caso, pode incorrer na doença chamada de “tosse dos canis”. Também é um vírus sem potencial de transmissão para gatos e humanos. Igualmente, o coronavírus suíno, que tem como sintoma a diarreia nos porcos, mas não passa para outras espécies.
A médica-veterinária pondera, no entanto, que hoje a preocupação é com os morcegos. Não é o caso de matar o animal se encontrá-lo pela frente, mas de estar atento: morcegos também têm coronavírus e há cerca de dois anos esse tipo vem causando a infecção de suínos no Oriente. Além disso, morcegos estão em qualquer lugar e podem voar quilômetros de distância.
Rossi reforça sobre a necessidade de as pessoas manterem a serenidade diante do cenário. Nada de abandonar ou matar animais por medo de contaminação.
“A gente não tem comprovação científica que um cão pode se infectar e pode transmitir o covid-19. Faltam ainda estudos que comprovem cientificamente essa hipótese. Agora, o que se pode fazer para evitar é o que a gente tem que fazer no dia a dia. Mexeu com cão ou gato, o certo é lavar as mãos. O que a gente está fazendo para previnir o covid-19 é o mesmo que se faz com a gripe”, explica.
Por ser um vírus envelopado com gordura, sabão e desinfetantes são capazes de eliminar o coronavírus de nossas mãos. Até mesmo por isso, entre as recomendações de prevenção estão: lavar bem as mãos até o pulso, esfregando debaixo das unhas; usar álcool 70% para limpar as mãos antes de tocar nariz, olhos e boca; tossir ou espirrar cobrindo o rosto com a parte interna do cotovelo; e limpar com álcool objetos tocados frequentemente.
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