Publicado em 13/03/2020 às 15h25.

Projeto estimula práticas integrativas no cuidado da saúde feminina

'Nossos Ventres' é iniciativa rumo à despatriarcalização da medicina e oferece capacitações neste sábado (14)

Estela Marques
Foto: Milena Abreu/ Nossos Ventres
Foto: Milena Abreu/ Nossos Ventres

 

É difícil falar de outra coisa em meio à pandemia do novo coronavírus, mas março segue sendo um mês simbólico para a luta feminina. Neste sábado (14), o projeto ‘Nossos Ventres’ realiza capacitações com foco na descentralização de informações sobre ginecologia natural.

O movimento integrativo parte da ideia de que o corpo físico reverbera o que vivemos em nossas emoções, psiqué e energia. Ainda que venha crescendo em bolhas, a ginecologia natural é uma iniciativa rumo à despatriarcalização da medicina.

“A medicina como um todo é ocidental, patriarcal e criada e registrada por homens por toda a história. Mas quando a gente vai olhar pra história mais antiga, por exemplo, a história do Egito Antigo, a gente tem um papiro, que é o tratado mais antigo em medicina que a gente tem notícias, o Papiro Kahun, que fala de vários tratamentos naturais para questões ginecológicas. A gente tem registro de todas essas medicinas naturais, a gente tem registro também oral de muitas comunidades quilombolas e indígenas de utilização não só de medicamentos naturais, mas também de práticas de autocuidado – obviamente não com esses nomes, porque são nomes que a gente cria com nossa vivência -, mas são coisas que já existem”, destaca Lara Carvalho, responsável pelas capacitações que acontecerão ao longo de todo o sábado, na Casa Rosada, nos Barris.

A programação começa com a capacitação voltada para todos os corpos menstruantes, como a organização se refere, e interessados de todas as idades. Das 9h às 12h, Lara, que também é terapeuta holística e pesquisa ciclos menstruais, divide a orientação da turma com a terapeuta holística e integrativa Jaqueline Almeida e com a criadora da marca de absorventes de tecido ‘Flor de Maio Bio’, Julia Morais.

Entre as práticas alternativas à indústria estão aromaterapia, fitoterapia, acupuntura e massagem. O propósito é identificar quais questões se quer trabalhar conforme a necessidade dos corpos físico e emocional. Isso implica mais humanização do cuidado com a saúde da mulher, o que é pouco visto nos consultórios tradicionais.

Na avaliação de Lara, que vive ativamente o movimento de despatriarcalização da medicina desde pelo menos 2016, falta respeito às crenças da mulher e diálogo entre médico e paciente. Um exemplo esclarecedor: quando fazemos exame preventivo, dificilmente o profissional fala o que vai acontecer durante o procedimento.

“Muitas violências acontecem nesses ambientes, porque a gente não sabe o que está acontecendo, porque em nenhum momento isso é comunicado pra gente. Acho que às vezes é questão de conseguir dialogar, ter consentimento, e isso passa muito pela humanização do nosso tratamento, não ser só um encontro de 5 minutos no consultório, e sim de olhar mais profundamente pra pessoa que está ali”, observa Lara.

Uma das capacitações trata justamente de orientar profissionais da área sobre humanização e práticas integrativas à saúde da mulher. A oficina acontece das 14h às 18h, com orientação das doulas Daniele Souza, que também é profissional de saúde coletiva, e Viviana Mata, que também é fisioterapeuta; e da psicóloga Ana Sampaio.

A perspectiva é de aumento no interesse pelo assunto, tanto por parte de pacientes quanto de profissionais, mas a conjuntura política que estamos vivendo freia o avanço dessa prática. Falar de humanização, segundo Lara Carvalho, realizadora do projeto ‘Nossos Ventres’, é um passo além, porque existem pessoas que não têm sequer acesso a um tratamento de saúde. Ainda pesa nessa projeção a necessidade de apoio do Estado, já que o movimento de despatriarcalização da saúde requer estruturas dissidentes do capitalismo.

“São estruturas que não apoiam o neoliberalismo, que apoiam, na verdade, nossa autonomia e nossa soberania enquanto povo. A gente precisa de governantes que entendam as questões que são importantes. Não tem como falar da autonomia dos nossos corpos se a gente não falar da autonomia das nossas terras. É tudo território também”, acrescenta.
Serviço

O que: Capacitações sobre saúde sexual e reprodutiva da mulher
Quando: Sábado, 14; das 9h às 12h (para público em geral) e das 14h às 18h (para profissionais de saúde)
Onde: Casa Rosada, nos Barris
Quanto: Entrada gratuita

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