Um dilema fatal
Brasileiro vive dúvida sobre ter que escolher entre um governo que não dá para defender e uma oposição que não dá para apoiar.

Nunca antes na história deste país, houve tantos motivos para desilusões e frustrações com a política e os políticos. Chega a ser quase inevitável assumirmos que a nação está esquizofrênica e doente.
Governados quase sempre – o “quase” apenas para poupar as exceções que confirmam a regra – por políticos profissionais, sustentados por canais de interesses, negociatas, arranjos e jeitinhos que, fazendo da nossa claudicante democracia apenas um ritual eleitoral em lugar de um modo de organização real do estado de direito, independentemente das siglas em que se apoiam e das ideologias que os inspiram, ficamos fragilizados enquanto povo, assistindo ao sepultamento paulatino do nosso projeto de nação.
Deu no que deu! Assim, hoje, se, por um lado, assistimos a um espetáculo grotesco da corrupção (que enoja e torna a própria atividade e a classe política em geral ainda mais desacreditada, fazendo com que muitos cheguem a aspirar à volta dos militares ao poder), pelo outro, em meio ao cenário tempestuoso do antagonismo dramático vivenciado entre os que apoiam e os que contestam o PT, a presidente Dilma e os seus aliados, corremos o risco de nos despedaçarmos numa guerra ilógica, lutando por ídolos de barro que, secretamente, se divertem, enquanto manipulam as peças do tabuleiro para se revezarem como donos do poder.
Para o antropólogo Roberto da Matta, professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC-RJ, em meio ao aparente caos, estamos vivenciando uma tomada de consciência talvez inédita na história do país, pois cansada dessas práticas políticas perversas e incestuosas, que levaram o país ao fundo do poço ético e moral, parte da população brasileira vivencia as dores do fim da inocência, em relação a projetos salvacionistas que, verdadeiramente, em nada privilegiaram a probidade, embora de alguma forma beneficiem ao bem comum.
Doravante, talvez, os administradores públicos se sintam coagidos a evitar desvios de verbas
Que não se objete precipitadamente que as vozes das ruas que clamam pelo impeachment ou pela intervenção militar, ingenuamente, acreditam que a simples retirada da presidente Dilma e do PT do governo resolverá os problemas nacionais ou, ao menos, o da nossa histórica, endêmica e sistêmica corrupção.
Nesse sentido, mesmo que uns não queiram, a “Operação Lava Jato” e as vozes das ruas já conseguiram conquistas importantes, pois, com o fim da inocência, doravante os administradores públicos, no mínimo, saberão que seus atos e decisões estarão sob o crivo da opinião pública e talvez assim se sintam coagidos a zelar pelo bom uso dos recursos, evitando desperdícios e desvios de verbas. Isso é ótimo.
Porém, tudo na vida é dual. Assim, enquanto despertamos das nossas históricas leniência e conivência que sempre permitiram vida longa e impunidade para os políticos que roubavam, mas eram competentes e faziam coisas importantes para a população, corremos o risco, em meio à maior epidemia de falta de ética e moral vivenciada em nossa história, de nos perdermos definitivamente no nosso projeto de nação.
Como nos alertava o saudoso Milton Santos, se não conseguirmos identificar o que nos une, ficaremos presos apenas ao que nos separa, entalados, paralisados entre as duas portas de um fatal dilema: ter que escolher entre um governo que não dá para defender e uma oposição que não dá para apoiar.
Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.
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