PMDB, a fé no balaio de gatos; Pinheiro, as razões da saída
A desfiliação do senador Walter Pinheiro do PT coincidiu com o mesmo dia em que o PMDB deixou o governo
Frase da vez
“No Brasil, o fundo do poço é apenas uma etapa.”
Luiz Fernando Veríssimo
Escritor brasileiro

O balaio peemedebista
Quem viu na tevê o senador Romero Jucá (RR) bradar a independência do governo em um clima festivo, haverá de pensar que o PMDB deu um exemplo magistral de coesão contra Dilma.
Não é bem assim por vários motivos. Dois deles, um circunstancial, outro histórico.
O circunstancial: a decisão por aclamação, e não votação, foi adotada para explicitar o desejo da maioria justamente para evitar o esperneio no mesmo palco dos dissidentes.
O histórico: o PMDB nunca foi unido, nem na época da ditadura, quando chamava-se MDB e só havia dois partidos: ele na oposição e a Arena pró-governo.
Naquela época dividia-se entre autênticos e adesistas.
É nessa vocação para balaio de gatos do PMDB que o governo confia. Acha que, nem que o comando do partido queira, conseguirá que uma banda continue apoiando-o.
Para começar, três dos sete ministros do partido se recusam a sair. O PMDB ensaia punir os infiéis. Só se for agora. Seria algo inédito.

Pinheiro e as razões da debandada
A desfiliação do senador Walter Pinheiro do PT coincidiu com o mesmo dia em que o PMDB deixou o governo.
Quem acha que a ação foi coordenada e que significa uma debandada orquestrada, está avaliando mal.
Pinheiro deixa claro que o problema é mais com o governo, o governo do partido dele, do que com o próprio PT. E por que? Porquê, embora Dilma tenha sofrido sua maior goleada em São Paulo, são os petistas paulistas quem dão as cartas.
E aí ele passou a comprar brigas homéricas, como a aprovação da lei que distribui o ICMS das compras via internet para os dois estados, o de origem e o de destino. Antes, era só o de origem e aí São Paulo era o grande beneficiário.
Veja alguns pontos de vista de Pinheiro diante da saída:
Sem oposição – “São mais com o governo do que o PT. Eu nunca disse que vou para a oposição a ninguém, estou na minha. Talvez agora eu esteja mais isento para ser compreendido. O governo não nos ouve. E tem maltratado muito a Bahia. Isso é desgastante”.
Novo partido – “É uma decisão para ser pensada com muita calma. Tem que ser algo, em termos de proposta, que eu possa ajudar a construir. Mas nunca cogitei ser candidato a prefeito, como alguns falaram, e muito menos quero ser dono de partido algum. Perguntam: e 2018.? Em 2018 a gente resolve”.
Situação pessoal – “É duro. Eu até hoje só tive um partido, que foi o próprio PT. Nunca me separei de minha mulher, não tenho experiência de separação. É um jogo duro. Não foi uma decisão fácil”.
Velhos amigos – “Tenho muitos amigos no PT e continuarei amigo deles, apoiando-os sempre, como o vereador Gilmar Santiago, o deputado Zé Neto e Orlandinho Peixoto (ex-prefeito de Cruz das Almas). O apreço continua”.
Rui Costa – “Conversei com ele. Expliquei minhas razões e disse que ele sempre contará comigo para ajudar nos pleitos da Bahia. Rui é um bom governador. É uma pena que o governo (de Dilma) não ajude. Agora mesmo está travando os pedidos de empréstimos para a Bahia. E para São Paulo dá tudo”.

Guerra anunciada
ACM Neto já previa que teria problemas com os sindicatos dos servidores municipais por conta das dificuldades que teria em dar reajuste este ano. E explicava as razões: “Eles são politicamente contra mim”. Na inauguração da Estação da Lapa ontem, disse em público o que falava reservadamente:
— As viúvas do PT não cobram do governo federal o reajuste zero que ele já anunciou, não cobram do Estado. Estão aqui para fazer baderna política.
Só não sabia que a primeira batalha aconteceria no dia do aniversário de Salvador.
Joseph no SD
Rifado em 2012 pelo PT como candidato a prefeito de Juazeiro, o ex-deputado Joseph Bandeira mudou para o PSD, depois para o PDT e agora mudou de novo: está no Solidariedade, articulação feita pelo ex-deputado Raimundo Sobreira.
Joseph diz a amigos que foge de partido governista como o diabo da cruz.
O fiscal sem fiscal
Sempre se disse que o TCM fiscaliza as prefeituras mas não tinha quem o fiscalizasse. Era um fiscal sem fiscal. Agora tem. Ontem, o TCE julgou (e aprovou), pela primeira vez, as contas do TCM.
Nem por isso deixa de haver o compadrismo, já que TCE e TCM são vizinhos de meia parede e os vícios que permeiam em um, vicejam em outro. Mas já é alguma coisa.
O TCE continua sendo fiscalizado pela Assembleia.
Epigrama da roupa suja
Uma vez o PMDB fora do governo, segundo o poeta Antonio Lins, a ordem é abrir as torneiras, tentar dividir os peemedebistas e distribuir favores aos demais partidos para tentar evitar o impeachment. E ele tascou o epigrama:
Mais uma lavanderia
Sem água na dita cuja,
Dilma diz o que faria
Com toda essa roupa
Sem vergonha
Presidente da Companhia Bahiana de Pesquisas Minerais (CBPM) e brizolista histórico, Alexandre Brust diz que, enquanto a Câmara tenta cassar Dilma sem responsabilidade comprovada, esquece o presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ), comprovadamente 171.
Aliás, no Congresso já se discute abertamente uma estratégia para livrar Cunha da cadeia. Ele renunciaria à presidência, mas teria o mandato e a imunidade (leia-se impunidade) assegurados. Com Cunha pode, com Lula não. Perderam a vergonha escancaradamente.
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