Infância desassistida, tragédia anunciada na periferia de Salvador
Abandonado pelo pais, usuário de drogas e olheiro do tráfico, menino de dez anos é esfaqueado em Valéria; ninguém sabe quem foi, ninguém viu o que houve

Em meio às tragédias que ilustram o dia a dia da tragédia maior da nossa (des) humanidade, me deparo com uma notícia de canto de página, em jornal local, sobre um menino de dez anos esfaqueado no pescoço, na madrugada desta terça-feira (12), num bairro periférico de Salvador. Por si só, a nota já é chocante. “Menino de dez anos” e “facada no pescoço” são duas informações absolutamente dissonantes e jamais deveriam compor um mesmo cenário.
Penso logo: deve ter sido um acidente. O guri, com certeza, deveria estar em hora e local errados. Vai ver, viu os pais brigando, tentou intervir, a situação fugiu ao controle e ele acabou sendo atingido…
Vou em frente na leitura do texto, agora movida pela curiosidade. Estarrecida, descubro que o pior ainda estava por vir. O alvo da agressão era mesmo o menino de dez anos. O golpe no pescoço era, sim, para ele.
E o que um menino de dez anos teria feito para ensejar uma agressão tão brutal? As informações só pioram. O crime aconteceu por volta das 2h, quando o garoto dormia na porta da casa da tia, um imóvel humilde, como os demais da Travessa Bulgária, no bairro de Nova Brasília de Valéria.
Novamente as perguntas que não podem calar: o que uma criança daquela idade fazia na rua, àquela hora da madrugada? Por que estaria dormindo na porta e não no interior da residência?
Como adverti antes, as informações contidas na nota só pioram a compreensão do cenário. O menino, conforme relato da polícia, é morador de rua, usuário de maconha e cocaína. Além de consumidor, seria operário do tráfico, na função de “olheiro”.
Por quanto tempo esse menino continuará
se equilibrando sobre o fio da navalha?
E onde estariam os pais do menino de dez anos esfaqueado no pescoço? Ainda de acordo com a nota de canto de página, eles também são moradores de rua. Teriam abandonado o garoto e a irmã (hoje com 12 anos) sob os cuidados da tia. Ocorre que, alegando falta de condições, a mulher teria se negado a acolhê-lo. Ficou somente com a menina. Rejeitado pela família, o garoto aninhou-se no colo dos senhores do crime.
Consumada a tragédia anunciada desta terça, as instituições se apresentam. O Conselho Tutelar da região e a Delegacia Especializada de Repressão a Crimes contra a Criança e o Adolescente (Derca) são notificados. E o que vem a seguir?
À frente da unidade que cuida de crimes contra crianças e adolescentes, a delegada Ana Crícia Macêdo, se manifesta: “Estes casos são registrados como tentativa de homicídio e depois encaminhados para a [Derca] ou para a delegacia da área [8ª Delegacia do CIA]”. Nada mais disse nem lhe teria sido perguntado. Ninguém viu a agressão, ninguém sabe o que e porque aconteceu o ataque.
Não sei o que me impactou mais nesse caso. O fato de uma criança ser esfaqueada? A sucessão de eventos trágicos que pontuam uma vida ainda tão incipiente? O pouco caso da mídia em relação ao assunto? Ou teria sido o pragmatismo da delegada?
Não cheguei a uma conclusão, mas não consigo me furtar a uma reflexão: com tantas desgraças acumuladas em tão pouco tempo de vida, se esse menino sobreviver à facada no pescoço, por quanto tempo continuará se equilibrando sobre o fio da navalha?
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