Liliana Peixinho é jornalista, ativista social, integrante de diversos grupos de luta e defesa de direitos humanos. Fundadora e coordenadora de mídias livres como: Reaja – Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente, Mídia Orgânica, O Outro no Eu, Catadora de Sonhos, Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, RAMA -Rede de Articulação e Mobilização em Comunicação.
Publicado em 04/10/2021 às 09h27.
Alzheimer e entornos do tripé família, sociedade e Estado
A importância da família funcional, afetiva, nos cuidados humanizados com seu familiar
Liliana Peixinho

Nessa entrevista, a gerontóloga Zuleika Oliveira (foto), fundadora do Instituto de Desenvolvimento Humano ‘Vida mais Viva’, em São Paulo, destaca o papel da família funcional, afetiva, nos cuidados humanizados com seu familiar.
Num cenário de terceirização da responsabilidade e cuidados familiares, a geração de idosos se ressente da garantia de direitos sagrados, em afetos presenças, observação, e cuidados que dignifiquem despedidas dignas, da vida!
Liliana Peixinho – Sabemos ser cada dia mais cedo os diagnósticos sobre Alzheimer. O que acontece? A doença avança na faixa etária; as pessoas estão mais atentas; a Medicina preventiva tem mais apoio?
Zuleika Oliveira – No Brasil, o número de idosos vem crescendo e deve dobrar nos próximos 25 anos. Isso implica também no aumento dos quadros de declínio de memória e demência, especialmente a incidência da doença de Alzheimer. Acredito que a conscientização sobre a doença e a necessidade de ações preventivas estejam contribuindo para as pessoas ficarem alertas a procurarem ajuda assim que percebem alguma alteração cognitiva. Com isso, os diagnósticos precoces também têm aumentado.
LP – Cuidei de meu pai, com D.A. muitos anos e coloquei em prática, sua própria filosofia de vida: “Se parar, enferruja, minha filha.” Sempre acreditei e pratiquei com ele o movimento, como princípio do próprio universo, em constante mudança! Como a senhora observa a relação, do que chamo de doenças oportunistas, como: pneumonia, AVC, infecção urinária, escaras, entre outras, com a falta de incentivo e potencialização cognitiva do pacientes, de forma preventiva lúdica, prazerosa, dentro do próprio histórico de vida pregressa do paciente/familiar?
ZO – A estimulação cognitiva é necessária em qualquer fase da vida. Estimular o convívio social, a leitura, o ingresso em cursos, a prática de exercícios mentais, são formas de potencializar a capacidade produtiva da mente e de manter uma reserva cognitiva.
LP – Em demandas históricas de desemprego, falta de tempo, informações, compromissos, de fato, com o outro, em observação e cuidado familiar com o seu paciente, como observa a transferência/terceirização, até de afetos, para o profissional “faz tudo” – lavar, limpar, cozinhar, dar banhos, remédios, passear, conversar, observar efeitos colaterais de remédios, cuidar da hidratação, alimentação – em um ambiente com inúmeras atividades que sabemos ser necessário o envolvimento coletivo, sobretudo em revezamento familiar?
ZO – O cuidado com o idoso precisa de muitas atividades diárias e algumas delas precisa ser terceirizadas, por diversos motivos, como por exemplo: a família é nuclear e muitas vezes, com um só filho; as demandas dos filhos são muitas e às vezes eles têm que escolher entre continuar trabalhando e ter condições de oferecer o melhor para esse idoso, cuidar desse idoso, abandonando o trabalho e com isso diminuindo a renda. Mas os cuidados têm que ser divididos entre os membros da família para que nenhum deles seja sobrecarregado e para que o afeto de todos seja o suporte emocional que esse idoso terá até o fim dos seus dias.
LP- O que pode dizer de informações sobre riscos e efeitos no uso de muitos remédios, sobrepostos, sem os devidos cuidados, negligentes, sem o acompanhamento médico e familiar diários?
ZO – A polifarmácia e o uso de medicamentos de forma inadequada são condições que agravam a situação de saúde das pessoas idosas. A iatrogenia que costuma estar relacionada com a reação adversa a medicamentos tem como fatores determinantes o desconhecimento e o despreparo de alguns profissionais. Outro fator importante são os atendimentos de forma fragmentada, onde se considera apenas a especialidade em questão, sem pensar no contexto em que o idoso está inserido. Mas isso pode ser evitado desde que os profissionais que lidam com esse público, principalmente, se capacitem e tenham uma visão holística do paciente, conheçam quais são os determinantes da saúde e da doença desse idoso.
LP – Qual a importância da nutrição e hidratação na prevenção de doenças que surgem por problemas em deficiência alimentar, que, sabemos, deve ser rica e fracionada em diversas porções ao longo do dia, com frequência e quantidade de alimentos, água/líquidos ingeridos, devagarinho, para não engasgar, associadas ao incentivo a movimentos cognitivos?
ZO – Uma nutrição adequada é sempre importante para qualquer pessoa, independente de faixa etária, mais ainda para o público idoso. A nutrição correta pode reduzir o surgimento de doenças como problemas cardíacos, diabetes tipo 2 , câncer. Um estado nutricional inadequado no idoso contribui de forma significativa para o surgimento de incapacidade física e para o aumento da mortalidade. A desnutrição no idoso pode ser confundida com sinais de envelhecimento, por isso, é importante o reconhecimento precoce para que possa ser corrigida de imediato. A alimentação do idoso deve ser completa, equilibrada e variada. Quanto à água, sabemos que é fundamental ao bom funcionamento de todo organismo e uma ingestão de água adequada é muito importante para promover a saúde e o bem-estar dos idosos. Com o envelhecimento, os mecanismos de regulação da água ficam alterados, e, além disso, o público idoso tem tendência a beber menos líquidos do que o recomendado, o que aumenta o risco de desidratação. A pele do ser humano é um órgão de proteção indispensável à saúde e bem-estar do indivíduo, principalmente da pessoa idosa. Alguns fatores que contribuem para o ressecamento da pele do idoso é a falta de ingestão de líquidos para manter a hidratação cutânea. Para evitar o envelhecimento patológico cutâneo, é preciso também hidratar sempre com cremes ou óleos e evitar banhos muito quentes.
LP – Num paciente com bom histórico alimentar, boa massa muscular, cognição ativa, sem histórico de doenças (coração, pressão, diabetes), quanto tempo, em média, pode viver, na devida dignidade, humanidade preventiva?
ZO – Sabemos de pacientes com 15 anos, ou mais, de Alzheimer. Segundo especialistas, uma pessoa com Alzheimer tem um tempo médio de sobrevida de 8 a 10 anos. Mas essa é apenas uma estimativa, pois existem vários casos de pessoas que viveram por um período mais prolongado. A idade, o nível de escolaridade, a história da família e a genética têm muita influência nisso. Também os fatores de risco, como hipertensão e doenças cardíacas. Três fatores parecem ter relevância: idade dos primeiros sintomas (pessoas idosas têm menor expectativa de vida), sexo, e nível de comprometimento no momento do diagnóstico.
LP – Como pesquisadora em prevenção de vida, cuidadora familiar do pai, por anos, e cidadã, gostaria de levar informações de qualidade às famílias, à sociedade. O que a senhora considera como mais importante no tripé família/Estado/sociedade para dignificar a vida dos idosos, portadores de D.A. e outras doenças neurodegenerativas?
ZO – Acredito que é preciso propor políticas públicas através dos conselhos de direitos, e a sociedade tem que ter participação ativa dentro desses conselhos para levar as demandas de sua comunidade. A família buscar a união para lidar com o seu ente querido acometido de demência; empatia e amor pelo paciente e informações adequadas sobre a doença.
LP – São muitos os filhos cuidadores solitários dos pais por anos. Sem apoio familiar, problemas financeiros, sozinhos, dia e noite, 24 horas por dia, vemos depoimentos traumáticos nos desafios de cuidar. Isso tem sido regra na maior parte das famílias brasileiras. Existem grupos especializados em cuidados com Alzheimer, para apoio, troca de informações e experiências, onde observarmos o desespero de quem cuida, sem o apoio, presença, revezamentos da presença efetiva e afetiva da família. O grupo ‘Cuidar do Cuidador’ compartilha informações sobre cuidados preventivos com quem é cuidado e com quem cuida. Depois que um pai, mãe, alguém do seu afeto, se vai, de forma digna, com a família ao lado, é normal seguir a vida. Mas observamos desfechos de mortes desumanas, indígnas, traumáticas, por causa de ingerências sociais. O então cuidador, dedicado e entregue, que deixou sua vida pessoal de lado para cuidar da mãe/pai, que fica sozinho, com problemas diversos, o que o Direito, as leis, o Estado, os órgãos de apoio social devem fazer com esse então cuidador ?
ZO – Quando não se tem uma família funcional, aquela que trabalha em conjunto para resolver e gerenciar os desafios que aparecem, é muito difícil o diálogo. O caminho é entrar em contato com o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) de sua cidade, para que os outros membros da família sejam chamados para conscientização e mediação. Caso isso não ocorra, o caso é levado para o promotoria pública para que se resolva a questão. O cuidado com o bem-estar do idoso é um dever, não opção. A negligência com a subsistência da pessoa com mais de 60 anos de idade ou a ausência de cuidado pode gerar processo. O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/03) estabelece que “é crime expor a perigo a integridade e a saúde, física ou psíquica, do idoso, submetendo-o a condições degradantes ou privando-o de cuidados indispensáveis”, e pode ocasionar detenção de dois meses a um ano e multa.
LP – A senhora tem alguma relação pessoal na escolha da defesa do seu trabalho pessoal? Que experiências positivas e negativas podem sinalizar para a sociedade como exemplo do que se pode, ou não, fazer nos cuidados com o seu familiar ?
ZO – A minha escolha para trabalhar com o público idoso foi por afinidade, por empatia, por amor. Desde minha infância, frequentava ILPIs para levar um pouco de alento para quem não recebia visitas de familiares. Depois de fazer uma transição de carreira, passei a me dedicar 24 horas à causa do idoso. Cuidei do meu pai, que era portador de demência de Korsakoff (demência ocasionada por abuso de álcool) por oito anos, e, apesar de ter minha rotina de vida totalmente modificada por esse período, posso dizer que as experiências positivas foram muitas. Uma aproximação maior e a oportunidade de ter conhecimento de parte da história de vida dele, incluindo seus sonhos que não foram realizados. Apesar de ser um período árduo na vida dos cuidadores, não podemos esquecer que também é um período de resgate de afetos, momento de reatar os laços que foram perdidos.
Perfil
Zuleika Oliveira, idealizadora do Instituto de Desenvolvimento Humano “Vida mais Viva”, é gerontologa, terapeuta com especialização em psicogerontologia e transtornos neurocognitivos; membro da Associação Brasileira de Gerontologia e da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia; presidente do Conselho Municipal do Idoso da cidade de Jarinu (SP) e presidente da ABTG – Associação Brasileira de Tecnologia em Gerontologia; trabalha há mais de 30 anos com o desenvolvimento integral do ser humano, em São Paulo e cidades do interior, com foco principal no envelhecimento saudável.
A experiência com o público Sênior foi adquirida pelo trabalho em ILPIs (Instituição de Longa Permanência), Centro Dia, CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial), CCIs (Centros de Convivência do Idoso) e Faculdade Aberta para a Terceira Idade.
Utiliza várias ferramentas, como: oficinas de estimulação cognitiva com ênfase em memória, yoga, dança circular, dança sênior, musicoterapia, comunicação empática, entre outras, para facilitar o caminho do autoconhecimento e realização, trabalho que mostra ser possível usar os potenciais criativo, intelectual, hemocional e energético para a saúde plena.
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