As espadas do comandante
Com R$ 19.666,66, no site Mercado Livre Brasil, seria possível adquirir 68 balaclavas ou 70 pares de botas especiais para bombeiros
Em sua edição do dia 14 deste mês, o Diário Oficial do Estado traz, à página 94 do caderno Licitações, uma informação que poderia passar totalmente despercebida fosse outro o momento. Trata-se do resultado do processo licitatório para a aquisição de duas espadas para o comandante do Corpo de Bombeiros Militar da Bahia. Valor da compra: R$ 19.666,66 (dezenove mil, seiscentos e sessenta e seis reais e sessenta e seis centavos).
Apesar de pouco expressivo, levando em conta o simbolismo do alvo da licitação, o custo das espadas vem causando rebuliço entre alguns setores da tropa. Tanto que a cópia do resultado da licitação rola de mão em mão em grupos da rede WhatsApp, foro nada privilegiado para discussões aleatórias.
Ressalte-se: até onde se sabe, tudo foi feito dentro da lei e cumprindo os trâmites exigidos pela legislação em vigor. Nada de ilegal ou imoral, aparentemente. Por que então a caserna se mostra alvoroçada? Primeiro porque, em reiteradas oportunidades o governador Rui Costa tem alertado para as dificuldades de caixa que o estado enfrenta. Não por acaso, descartou temporariamente reajuste de salários e está fazendo malabarismos para pagar o 13º dos servidores.
Mas, se não bastasse o momento fiscal delicado que o país (e não apenas a Bahia) vivencia, há que se considerar a inoportunidade da destinação de quase vinte mil reais para a aquisição de duas espadas, quando o Corpo de Bombeiros da Bahia não pode ser considerado o mais bem equipado da galáxia. Verdade que, no ano passado, pouco antes das eleições, a corporação ganhou reforço de frota. Foram adquiridas 31 viaturas (carros autobombas, autobusca e salvamento, autorrápido, além de veículos para suporte avançado, dentre outros modelos). Desde então, que novos equipamentos foram incorporados?
Pode-se argumentar que R$19.666,66 é uma ninharia no universo de recursos que o estado movimenta. Pode ser. Mas vá dizer isso aos brigadistas da Chapada, que, numa versão local da fábula do beija-flor, fazem sua parte no enfrentamento à língua de fogo que lambe fauna e flora nativas há quase um mês. Com esse montante, numa conta aligeirada, seria possível adquirir, por exemplo 131 pares de coturnos (R$150, o par) ou 70 pares de botas especiais (R$279/par), segundo dados do site de compras Mercado Livre Brasil.
Com R$ 19.666,66, nesse mesmo ambiente virtual, seriam adquiridas 68 balaclavas especiais para bombeiros da marca Aramida, duas camadas. Balaclava, para quem não sabe (eu não sabia) é aquele gorro justo de malha de lã, que cobre cabeça, pescoço e ombros, equipamento indispensável a quem faz um corpo a corpo com as chamas. Só para constar, no Mercado Livre, também estão disponíveis para venda espadas de comandante-geral bombeiro. Os valores variam, mas a mais cara, da marca Ibéria, nova, está sendo vendida a R$7,5 mil.
Claro que não se pode comparar a importância de uma insígnia militar, com seus significados emblemáticos, com o valor venal de um equipamento de proteção individual. Com apenas um ano de emancipado da Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros Militar da Bahia deve estar mesmo precisando adquirir as espadas. Não se põe em dúvida essa necessidade. Ou seja, a ação é legal, moral e digna. Mas seria oportuna? Com R$ 19.666,66, seria possível tornar menos árdua a tarefa do bombeiro. Ou ajudar a minimizar a luta inglória dos brigadistas da Chapada.
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