Liliana Peixinho é jornalista, ativista social, integrante de diversos grupos de luta e defesa de direitos humanos. Fundadora e coordenadora de mídias livres como: Reaja – Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente, Mídia Orgânica, O Outro no Eu, Catadora de Sonhos, Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, RAMA -Rede de Articulação e Mobilização em Comunicação.
Publicado em 27/06/2016 às 20h10.
Descartes criminosos
O desafio é implantar a Cultura dos RR : Racionalizar, Reduzir, Repensar, Reutilizar, Reinventar, Reciclar e Revolucionar
Liliana Peixinho

Observe a relação do cidadão do Brasil com o consumo – seja de comida, roupa, serviço, cultura… – para entender os caminhos que leva a vida em harmonia ou descaso. O cenário é de muita sujeira, em seu mais amplo conceito. O povo costuma dizer que podemos conhecer uma pessoa, uma casa, uma instituição, pelo ”lixo” descartado. As formas são diversas, desde quando se vai a um restaurante e lá se serve em demasia e desperdício, ao cuidado com o armário, a gaveta, a prateleira, a geladeira, a bolsa. O apelo raso da propaganda nos leva a adquirir muitas coisas, sem necessidade. O que sobra aqui e ali, falta acolá. O resultado disso são montanhas de resíduos descartados, criminosamente, em ambientes, como leitos de rios, praia, floresta, caatinga, rua, praça, bueiros, onde a vida pede cuidado.
A limpeza que a Lava Jato tenta fazer, de forma histórica, no Brasil, deveria ser extensiva às gestões criminosas entre prefeituras e empresas de coleta de resíduos. O volume de recursos investidos é desproporcional aos resultados que se diz apresentar, em projetos que, na real, não funcionam, como acordado em contratos, parcerias, convênios, apoios, e outras formas de capitalização do “lixo”. Não temos um projeto de educação doméstica na Bahia, no Brasil. Não se oferece contrapartidas com estruturas que estimulem, viabilizem, possam operacionalizar um fazer limpo, a partir de nossas casas.
A pessoa chega, por exemplo, para o Movimento Amigos do Meio Ambiente (AMA) – que paga o que não tem, desde 1999, porque não capta recursos de governo ou empresas e é sustentado por gente que teima em sonhar com um Brasil limpo – e diz assim: “Vocês podem vir aqui em casa pegar umas sacolas plásticas e outros resíduos que separamos?”. Uma pergunta dessa angustia qualquer ativista que teima em apoiar quem tem boa intenção e faz sua parte, lindamente, em casa. No entanto, no bairro onde a cidadã ou cidadão mora existem coletores seletivos, mas não funcionam. Ficam abarrotados, caindo pelo chão, e lá dentro, tudo misturado, sujo, como lixo, não como coleta seletiva.
Aí se pensa: o município gasta milhões para implantar uma estrutura, bonitinha e ordinária, porque não funciona, mas não se esforça para entender e fazer as mudanças que a logística exige, para educar, fiscalizar, punir, limpar, civilizar o jeito de se descartar. E o cidadão, insatisfeito, quer que um movimento que não pode nem mesmo pagar contas de luz, internet e deslocamento, e trabalha assim, há anos e anos, faça o serviço e nem quer saber das dificuldades que o movimento passa para fazer o papel que não é dele! O AMA já foi pegar (e pega) doações seja de roupa, sapatos, livros, brinquedos, embalagens… em bairros bem distantes de onde se abriga. Vez em quando, aparece um carro amigo e a gente vai, coleta, seleciona, entrega, acompanha e estimula caminhos limpos.
Com tanta informação ao dispor,
já passou da hora de mudarmos
O desafio é implantar a Cultura dos RR – Racionalizar, Reduzir, Repensar, Reutilizar, Reinventar, Reciclar e sobretudo, Revolucionar, comportamentos, sujos, em limpos. E como movimento livre, independente, sem CNPJ para lavar dinheiro sujo, como muitas ONGs fazem por aí, o AMA tenta recorrer a plataformas horizontais, cidadãs, de financiamento coletivo, onde você aí é quem valoriza o seu esforço, como cidadão consciente, a partir de sua própria casa, para limpar o seu jeito de descartar. Mas o povo não colabora com o AMA, não ajuda, não contribui. Só curte e ponto. Raros são os amigos que contribuem para fortalecer o trabalho.
Se você aí, leitor, quer saber para onde vai aquela meia suja que não quis lavar direito, aquele abacate podre que teve preguiça de transformar em vitamina, aquela latinha de refrigerante, que te envenena todo dia, aquele ventilador que deixou de funcionar porque não limpou e fica mais caro consertar que comprar outro novo… e tantas coisas que não temos cuidado em usar, no dia a dia e acaba descartado, como lixo, sem valor; basta acompanhar um desses caminhões coletores aí até o fim do seu destino. Para lhe ajudar na pesquisa veja alguns posts compartilhados na página do AMA no Facebook e redes sociais mundo afora. É criminoso, insalubre, incivilizado, perverso, desumano, feio mesmo! E, com tanta informação ao dispor, já passou da hora de mudarmos. Sem essa de dizer que não adianta você separar em casa, porque lá fora, no caminhão, fica tudo misturado.
A ideia é desconstruir o conceito de “lixo” e valorizar nosso suor sagrado em trabalho e luta para se adquirir algo, seja um carro ou uma banana. Identifique catadores em sua rua e crie com ele uma relação afetiva, de respeito, de cuidado, de amor. Porque é ele, o catador, o verdadeiro agente ambiental, tão desvalorizado. Tente passar informações sobre como é importante construir uma cadeia limpa, potencializando coletivos artesãos, costureiras, doceiras, feirantes, na cultura do Desperdício Zero. E para mostrar que é importante fazer a fala, veja abaixo o vídeo. Quem sabe, lhe sirva como exemplo para um novo jeito de olhar e descartar o que você acha que não serve mais para nada?
Liliana Peixinho é jornalista, ativista, autora de “Por um Brasil Limpo”. Fundadora da Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente (Reaja), do Movimento Amigos do Meio Ambiente (AMA) Mídia Orgânica e outras mídias alternativas. Especializada em Jornalismo Científico e Tecnológico. Vencedora do Prêmio Shift – Agentes Transformadores – 2015.
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