Publicado em 07/12/2015 às 10h46.

O rei Cunha está nu. E nós, estamos o quê?

Levi Vasconcelos
Eduardo Cunha. (Foto Lula Marques/Agência PT)
Eduardo Cunha. (Foto Lula Marques/Agência PT)

Dizem que, ao aceitar o pedido de impeachment de Dilma, Eduardo Cunha, o malfadado presidente da Câmara dos Deputados do Brasil, ficou nu. Não tem mais os acenos do governo e nem da oposição para atingir o seu objetivo maior, livrar-se da cassação (leia-se cadeia), que lhe garantiria a imunidade  (leia-se impunidade).

E aí o Brasil produziu um fato inédito na história do mundo civilizado: um presidente de Câmara acusado de lavagem de dinheiro, corrupção e falta de decoro, pautando a vida política do país, acuando a presidente da República que, de resto, não tem acusação direta sobre ela.

Ora, em qualquer país minimamente sério, Cunha seria imediatamente afastado, se não por ato de vontade, o que seria possível se ele ainda tivesse algum resquício de pudor ético, mas pela vontade do conjunto, em respeito ao povo.

Pela culatra – O episódio de Cunha nos induz a algumas perguntas que nossos nobres deputados deveriam responder:

1 – É justo que a imunidade, instituída para salvaguardar a ampla liberdade aos parlamentares, livres de abusos por parte do Executivo e do Judiciário, sirva para assegurar a impunidade de corruptos?

2 – É justo que o foro privilegiado, instituído para livrar parlamentares das instâncias inferiores da justiça também em nome da ampla liberdade de ação, sirva para corroborar com a impunidade?

Na Lava Jato, só tem empresários e políticos sem mandato presos. E Cunha (como os outros) ancora-se nos dois princípios para tentar garantir a impunidade. A justiça, tão vagarosa normalmente, em tais casos chega a parecer que é generosa.

E de ardil em ardil, Cunha vai se garantindo. Dizem em Brasília que ele ainda tem um trunfo. A Câmara tem até abril para dar o veredicto sobre seu mandato. A ideia é, até lá, apresentar nova denúncia com o mesmo teor. Aí, dizem os arquitetos da estratégia, começa tudo de novo, porque os dois processos teriam que ser juntados para evitar decisões distintas sobre o mesmo caso.

Se colar, ele vai até 2018 assim, quando tentaria novo mandato e renovaria a impunidade.

Quando Cunha aceitou o pedido de impeachment de Dilma o mundo inteiro noticiou. E a mídia internacional lamentou o sofrimento do Brasil. Infelizmente não detalhou o aproveitamento iníquo das brechas legais que faz o Brasil chorar. De vergonha.

Levi Vasconcelos
Levi Vasconcelos é jornalista político, diretor de jornalismo do Bahia.ba e colunista de A Tarde.

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