Cinzas: Cotidiano de jovens negros inspira filme baiano
Lançamento do curta-metragem ocorre neste sábado (12), às 18h30, na Sala Walter da Silveira, em Salvador, com entrada gratuita
Ônibus lotado, medo da polícia e aluguel atrasado. A lista, aparentemente pequena de situações cotidianas, leva a desequilíbrios emocionais com resultados que transpassam a esfera individual. É no coletivo da cidade soteropolitana que Toni vive mais um dia de caos, desde o cigarro molhado ao café amargo à subserviência obrigada de quem é assalariado. O enredo é de um conto que inspirou um filme e que representa muitas histórias, seu nome: Cinzas.
Gravado em 2014, na Suburbana, Plataforma e Alto do Cabrito – bairros de Salvador, Cinzas é o segundo filme da diretora baiana que tem como nome artístico Larissa Fulana de Tal (Lápis de Cor, 2014) e será exibido pela segunda vez neste sábado (12), às 18h30, na Sala Walter da Silveira (subsolo da Biblioteca Central, Salvador), com entrada gratuita.
O desespero de Toni, personagem principal da trama e vivido pelo ator Guilherme Silva, é alimentado pelas opressões diárias que atormentam quem é preto, pobre e favelado na capital baiana. As angústias do jovem universitário não surpreende quem também é protagonista do mesmo cenário da vida real, mas inspira reflexões que fogem à regra da síntese pela qual propõe a sétima arte.
“Eu procurei filmar esta trama (baseada no conto homônimo de Davi Nunes) justamente para que as pessoas reflitam sobre o cotidiano, já que muitas vezes as condições que vivemos, como um ônibus lotado e o medo da polícia, que são impostas, na verdade também representam a falta de planejamento do transporte público e o racismo introjetado na polícia baiana, onde o suspeito padrão tem cor”, explica a diretora Larissa Fulana, que é bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB).
A diretora conta que utilizou como inspiração, para gravar a trama de Toni, o modo de contar histórias através das câmeras do cineasta senegalês Ousmane Sembène – um dos principais nomes do cinema africano. “A maneira acelerada como ocorre as circunstâncias diárias na vida de Toni tinha que acompanhar o seu pensamento, por isso busquei no filme O Carroceiro (Borom Sarret –1963), de Ousmane, inspiração de ritmo e gravação”.
Considerado o pai do cinema africano, o cineasta senegalês faleceu em 2007 e, ao longo da sua vida, escreveu dez romances e realizou 12 filmes. Seu trabalho é conhecido mundialmente pelo compromisso com a denúncia do abuso de poder e pela crítica social, preocupação pela qual Larissa Fulana também compartilha na sua trajetória no cinema e nas suas produções audiovisuais. No próximo dia 18, às 18h, na Praça São Braz (Plataforma, Salvador), a cineasta lança o documentário Não Somos Mais Um, registro audiovisual que aborda o assassinato dos jovens negros, onde ela assina a coordenação técnica.
O curta-metragem é uma produção do coletivo de cinema negro Tela Preta, organização que discute e produz materiais audiovisuais sobre a representatividade da população negra, e é uma das obras selecionadas do Edital Curta Afirmativo: Protagonismo da Juventude Negra (2012), ação da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAv/MinC).
Confira abaixo o teaser do filme:
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