Jovens negros: câmera na mão e suas vidas defendidas nas telas
Grupo de dez jovens do Subúrbio Ferroviário de Salvador lançam documentário sobre violência e segurança pública, nesta sexta (18), em Plataforma

Na contramão das mortes sistemáticas da juventude negra no Brasil, um grupo de dez jovens do Subúrbio Ferroviário de Salvador decidiram não apenas denunciar o genocídio, mas também mostrar para a sociedade que os seus corpos negros não são só mais um na crescente taxa de homicídios do país e do estado – em 2014, a Bahia teve 5.450 mortes, destas cerca de 83,3% são jovens, negros e moradores de periferias, segundo levantamento do Diagnóstico dos Homicídios do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública.
A carga pesada de dores e revolta que os rapazes e moças carregam com a banalização da violência contra eles é um dos pilares do documentário “Não Somos + Um”, que será lançado nesta sexta-feira (18 de dezembro), às 18h, na Praça São Braz, em Plataforma, e contará com apresentações de música, teatro e poesias de grupos do Subúrbio e de outras periferias de Salvador.
Em três meses, eles reuniram, em aproximadamente 15 minutos, depoimentos e relatos de jovens lideranças das periferias soteropolitanas, intercalados por falas de representantes governamentais, como a da ouvidora-geral da Defensoria Pública do Estado, Vilma Reis, e de artistas conhecidos do público baiano, como o cantor Marcio Vitor e o ator do Bando de Teatro Olodum, Fábio Santana.

O documentário aborda o rastro de violências e vulnerabilidades que colocam o jovem negro como inimigo da sociedade e, a juventude negra em geral, como seres humanos invisíveis para o exercício digno de sua cidadania. “Não somos só mais um que morre. É isso que o nosso documentário denuncia e revela, que apesar de tudo, ainda continuamos vivos e querendo fazer a diferença”, conta a jovem moradora de Plataforma, Neusinéia Maciel Miranda.
Ela, que é estudante de comunicação da Ufba, é uma das mentes por trás da concepção e produção do registro audiovisual. Sua participação no documentário transcende as áreas de edição, direção e produção. Ela é uma irmã órfã; seu irmão mais velho de 24 anos morreu em 2013, vítima da violência policial, para não citar a perda de outros amigos, jovens, negros e pobres, também privados da vida que ela acompanhou ao longo dos seus 22 anos.
Cantor Márcio Victor é um dos artistas que participam do documentário
Monitoramento – A denúncia histórica contra o assassinato em série de jovens é uma pauta que, somente nos últimos cinco anos, ganhou a atenção do governo federal e suscitou a criação de políticas públicas voltadas para a redução da vulnerabilidade de jovens negros a situações de violência física e simbólica, tais como o plano e o projeto, Juventude Viva e Pacto Pela Vida, respectivamente. A partir do princípio de que são eles o público-alvo das duas políticas, o filme “Não Somos + Um” também se apresenta como o resultado final do monitoramento das ações do governo federal, realizado por meio do projeto Juventude Negra e Participação Política da Ong Cipó Comunicação Interativa.
“Esse é o nosso primeiro produto que trata do tema de uma forma mais complexa e tem justamente esse objetivo de revelar uma diversidade de vozes e complexidades sobre o genocídio da juventude negra”, conta Leandro Vilas Verde, coordenador da Agência de Comunicação do Subúrbio – Centro Comunitário Multimídia da Cipó. Ele conta que a decisão de abordar o tema em um registro audiovisual partiu exclusivamente dos jovens do projeto e dos educadores, referências da ONG, que apenas acompanharam e auxiliaram os idealizadores nos caminhos a serem percorridos durante a produção do documentário.
“Nosso trabalho foi o de possibilitar que esses jovens reflitam sobre os problemas que os rodeiam, dando a eles autonomia para isso. E, consequentemente, que eles possibilitassem que outros jovens também tenham acesso às discussões que eles tiveram, quebrando justamente a lógica atrelada às estatísticas e violências”, explica Eduardo Machado, jornalista e educador referência no projeto.

Lançamentos simultâneos – Após a exibição do documentário, o público pode conferir também o lançamento do livro Juventudes Negras: Trajetórias e Lutas, produto fruto do projeto Rodas de Conversas Sobre Juventudes Negras: Identidade, Desenvolvimento e Genocídio, uma ação do Observatório de Juventudes Negras, promovido pela Articulação Política de Juventudes Negras e a Associação Frida Kahlo, e contará com a participação do militante, filósofo e organizador da obra Samoury Mugabe, Ferreira Barbosa.
Outra projeção prevista para a noite desta sexta (18) é o lançamento, em Salvador, do filme O Tempo dos Orixás (The Summer of Gods), da cineasta baiana Eliciana Nascimento. O curta de gênero fantasia mostra a experiência de Lili, uma menina de 7 anos, que tem a habilidade de se comunicar com os ancestrais. O filme teve lançamento internacional no Festival de Cannes, em 2014, e desde então tem sido exibido em várias partes do mundo e já recebeu cinco premiações em festivais de cinema nos Estados Unidos e Cabo Verde, dentre estas, três de melhor filme.
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