Contra a maré da desonestidade, baianos devolvem Bolsa Família
Famílias entregam voluntariamente cartão do benefício

Na contramão de casos de corrupção, que envolvem políticos e empresários em todo o país, pessoas humildes fazem o certo e viram notícia por serem honestas. Em meio a inúmeros cancelamentos dos programas sociais, algumas famílias baianas entregam, de forma voluntária, o cartão do Bolsa Família. Nos últimos dias, a pacata cidade de Mutuípe, com 21 mil habitantes, a 236 km de Salvador, se viu nos noticiários de todo o estado, não por algo ruim, mas por uma ação que deveria ser corriqueira.
No dia 13 de outubro, a dona de casa Vanja Célia Lima dos Reis, de 55 anos, saiu do povoado de Serra do Rato, onde reside, e foi até a Secretaria do Trabalho e Assistência Social da cidade para a devolução voluntária do cartão Bolsa Família, programa do governo federal que oferece ajuda às famílias de baixa renda. O motivo? Ela havia se aposentado.

Honestidade – Uma casa simples, com piso de cimento, poucos cômodos, muitas bocas para alimentar, na zona rural de um interior no Centro-Sul baiano. A vida da agora aposentada dona Vanja é de muito trabalho e nenhum luxo. Até então, nada diferente do que é normalmente visto na maioria das famílias brasileiras. Com quatro filhos e seis netos para criar,ela tem uma vida dura que se assemelha à de muitas famílias brasileiras. A miséria que passa a lavradora não a fez desonesta.
“Dizem que eu devolvi o Bolsa Família porque ganhei na loteria. Não preciso de mais benefício do governo. Já tenho o meu para sobreviver. Me senti muito alegre em devolver. Tenho certeza que vai para outro que precisa”, conta ela, que deixou de ganhar R$ 422 com o benefício. “Não deixei de trabalhar mesmo com a aposentadoria. Começo 7 horas da manhã e termino umas 4 horas da tarde”, completa Vanja, cansada, após mais um dia de trabalho na roça colhendo cacau, mas com o sorriso no rosto.
Dona Vanja conta que o marido a abandonou em 2008 e passou cinco anos fora. “Foi o momento mais difícil. Fui morar na rua”, explica ela. Há dois anos, o marido retornou arrependido e teve o perdão da agora aposentada. No momento em que se aposentou, em outubro do ano passado, Vanja pegou empréstimo e comprou um carro para ajudar as pessoas da roça. “Serve para socorrer quem precisa, para eu ir à feira também”, relata ela, que, como não sabe ainda dirigir, deixa o marido guiando o Fiat Uno que custou R$ 7 mil.

“Não quero saber se político rouba”
Próximo ao centro de Mutuípe, mora José Carlos Alves dos Santos, o “Mão Branca”. Um lavrador de 52 anos que recebeu R$ 79 do Bolsa Família, em setembro deste ano, e deu baixa na carteira após se aposentar. “Eu entreguei [o cartão] porque não precisava mais. Não quero saber se político rouba. Já devolvi dinheiro na rua, porque não devolveria algo que não é mais meu?”, questiona ele, que foi aprovado pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), após ter sido diagnosticado com uma doença cardíaca. “Não tinha precisão de continuar com esse dinheiro, já que consegui minha aposentadoria”, diz.

Dados – De acordo com os dados do Cadastro Único, do Governo Federal, em 11 anos, desde que o programa foi criado, 3.155.201 famílias saíram voluntariamente do programa de transferência de renda em todo o país, até abril deste ano. Outras 3.029.165 famílias tiveram o benefício cancelado desde 2004. Segundo o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, essas famílias foram identificadas nos processos de monitoramento e controle realizados pelo órgão. Em Salvador, de acordo com dados da Secretaria de Promoção Social e Combate à Pobreza, das 202.915 famílias beneficiadas com o Bolsa Família, apenas 18, neste ano, deram baixa no programa voluntariamente. Em Mutuípe, 4.744 famílias estão cadastradas para receber o auxílio, e cinco deram baixa no cartão de forma voluntária.
Estímulo – A coordenadora do programa na cidade do Centro-Sul, Miralva Pereira, comemora o fato de as cinco pessoas terem entregado de forma voluntária o cartão, e espera que essas ações estimulem outros a fazerem o mesmo. “Teve caso de um que passou no concurso público e deu baixa na carteira”, exemplifica. O ex-beneficiário do Bolsa Família que entregar voluntariamente o cartão pode solicitar novamente o benefício no prazo de 36 meses.

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