Centenário da Festa de Yemanjá
Artigo de Ângela Guimarães, secretária de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais

Fé. Ancestralidade. Amor. Esperança. Saúde. Prosperidade. Muitas são as expectativas e pedidos neste dia 02 de fevereiro onde são celebrados os 100 anos da primeira Festa de Yemanjá em Salvador.
Após dois anos de pandemia, ocasião em que a festa foi suspensa pelos riscos sanitários, a celebração à Rainha do Mar se reveste de muitos significados neste ano de 2023. Um primeiro diz respeito à reafirmação que a Festa de Yemanjá é a principal celebração popular do país ligado a uma religião de matriz africana. Trata-se de uma festa de origem negra. Yèyé Omo ejá, Yemanjá, a grande mãe, o oceano que origina tudo, é a divindade do candomblé e da umbanda considerada a mãe da diáspora, pois é cultuada em todos os lugares da América onde desembarcaram africanos iorubás. A celebração à Yemanjá é local e global, onde quer que haja a presença negra e existam águas doces ou salgadas, existe também a fé, a celebração, a ritualística que envolve pedidos e agradecimentos à “mãe cujos filhos são peixes”.
Na capital baiana, a localização geográfica contribuiu para fortalecer a ligação com a orixá. Como a cidade está situada à beira-mar, a adoração à Rainha das Águas ganhou projeção desde cedo. Mas foi a partir de 1923, com uma pequena oferenda realizada por 25 pescadores da região do Rio Vermelho, que o festejo começou a ganhar algumas das características atuais. A expectativa do grupo, com o então chamado Presente da Mãe d’Água, era resolver a escassez de peixes. A tradição cresceu e na década de 1950 foi oficializada como Festa de Iemanjá. Desde então, virou sinônimo de resistência e valorização da cultura negra. Yemanjá também é invocada como Ia Ori, a mãe das cabeças. E é na cabeça, que encontra-se o destino, o caminho ou as múltiplas possibilidades de ação e escolhas no mundo.
Mais que um simples rito de entrega de presentes a Dona Janaína, Iara, Princesa de Aiocá, Kaiala e tantos outros nomes pelos quais a orixá é conhecida, a Festa de Yemanjá, no dia 2 de fevereiro, abarca atualmente uma pluralidade de manifestações culturais e religiosas. Do ponto de vista do sagrado, devotos e populares entregam suas ofertas em balaios que são levados em barcos ao mar com a ajuda de pescadores locais. Muitos terreiros de candomblé montam tendas na areia para receber suas comunidades religiosas, organizar seus presentes e oferecer à rainha do Mar. À oferta de flores, perfumes e dos tradicionais balaios, se somam os cortejos de grupos percussivos, rodas de capoeiras, modelos vivos, maracatus e uma infinidade de expressões da cultura popular baiana.
Na véspera deste dia tão esperado, o presente para Oxum é depositado no Dique do Tororó, espaço localizado fora do circuito da festa. Na Casa dos Pescadores, no Rio Vermelho, a celebração centenária também abrigará mais um capítulo da história de afirmação ao inaugurar uma escultura realista, que faz uma revisão histórica do padrão de beleza africano de Yemanjá, desta vez representada por uma mulher negra. A nova escultura tem 1,40 metros de comprimento e personifica traços da beleza feminina africana, confeccionada em estrutura metálica combinada com resina de vidro e de mármore.
Porém nem tudo são flores. Ao longo das décadas, a popularização da devoção à Yemanjá foi acompanhada pelo processo de embranquecimento da divindade de origem africana, representada comumente como uma mulher branca, alta, magra, de longos cabelos lisos, o que fez que a mesma alcançasse setores médios da sociedade e a parcela branca da população, numa nítida expressão do racismo estrutural que busca descaracterizar a presença e contribuição negra na formação da nação e imaginário brasileiros. Outras expressões do racismo e da intolerância religiosa infelizmente também se fazem presentes no cotidiano, dado que são crescentes os números de ataques a terreiros de candomblé, umbanda e à religiosas(os) de matriz africana, assentados no ódio e racismo religioso.
O antídoto para essas práticas é informação, conscientização e combate à impunidade. A recente equiparação da injúria racial ao crime de racismo, agravando suas penas e dobrando sua intensidade quando se trata de manifestações racistas ocorridas em espaços esportivos, de lazer e entretenimento, contribui para alertar e intimidar aquelas pessoas escondidas sob a crença na espiral de impunidade dos crimes de racismo no país. A Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais disponibiliza, nesta e noutras festas populares, serviços de assistência jurídica, social e psicológica por meio do Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa Nelson Mandela que conta com equipe profissional multidisciplinar para a prestação de atendimento às vítimas do racismo e da intolerância religiosa.
Nenhum passo atrás, racismo é crime e assim deve ser tratado.
Ângela Guimarães é titular da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais do Estado
Mais notícias
-
Artigos09h34 de 04/12/2025
Teste foto alta resolução
-
Artigos11h13 de 19/11/2025
PL do Streaming em discussão: o Brasil entre a regulação e o futuro
-
Artigos20h04 de 05/11/2025
Uma vitória da justiça tributária: o Brasil está do lado de quem mais precisa
-
Artigos10h31 de 28/10/2025
Minerais críticos e estratégicos: análise jurídica e de política regulatória
-
Artigos08h00 de 06/09/2025
O sexo que o capacitismo insiste em negar
-
Artigos20h04 de 27/08/2025
OPINIÃO: Encontro de Bruno e Jerônimo é sinal de maturidade, mesmo tardia
-
Artigos13h47 de 26/08/2025
Extradição não é deportação
-
Artigos13h07 de 22/08/2025
OPINIÃO: Pesquisa mostra claramente quem está com quem para 2026
-
Artigos20h30 de 18/08/2025
Sim ao açaí: a gastrodiplomacia às vésperas da COP 30
-
Artigos18h16 de 18/08/2025
Sem esquerda no 2º turno, Bolívia dá guinada à direita









