No meio do caminho
Se problemas fazem parte da vida, por que buscar superá-los é um dos maiores obstáculos que enfrentamos?

Toda vez que leio e releio o poema “No meio do caminho” de Carlos Drummond de Andrade, sou tomado de uma grande inquietação diante da simplicidade profunda de uma frase que, ao meu modo de pensar, pode ser vista como uma metáfora de “vida”, ao resumir toda a nossa angústia do estar no mundo: “No meio do caminho tinha uma pedra”.
Nesse sentido, como tenho consciência de que o caminho se faz ao caminhar, fico pensando no que seria de nós se não houvesse as pedras no meio do caminho, os reveses, as adversidades e os empecilhos, em suma, esses choques de realidade que nos confrontam com a nossa humana condição…
Queiramos ou não, vez por outra, todo ser humano tropeça em dificuldades e vicissitudes em muitos momentos da sua existência, afinal, como pedras na nossa caminhada não faltam, se há uma pedra no meio do caminho, é preciso seguir adiante, mesmo sabendo que novas pedras aparecerão durante o caminhar.
Mas, se problemas fazem parte da vida, por que buscar superá-los é um dos maiores obstáculos que enfrentamos? Por que será que, às vezes, diante do desespero de um beco sem saída, nos esquecemos de que quando a fé não move montanhas, com certeza, nos ajuda a contornar?
Em busca de respostas para esses questionamentos, temos que entender que a fé é o fundamento da esperança e, ainda que para ter fé seja necessário ter esperança, nem todos que têm esperança têm fé! Enquanto a esperança, como o nome sugere, implica um estado de espera; quem tem fé confia num plano superior e entende que as dificuldades atendem a um propósito e servem como aprendizado.
Não se vive sem fé, mas a fé para ser
verdadeira há que ser ativa
Nessa lógica, ter fé é possuir uma crença, uma firmeza convicta de que há algo maior, não puramente material, que nos mantém caminhando com esperança, seguindo em frente pelas sendas da vida, ultrapassando obstáculos e nos mantendo no rumo do lugar no qual tanto queremos chegar.
A fé não é uma garantia, uma certeza que possuímos, na nossa fantasia de onipotência, de que as coisas ocorrerão sempre conforme nossos desejos, nossas vontades. Assim, não podemos nos esquecer de que crer é, antes de tudo, um ato de confiança, uma entrega e um abandono nas mãos Daquele que acreditamos ser digno de nossa entrega, independentemente da forma como O vejamos.
Não se vive sem fé, mas a fé para ser verdadeira há que ser ativa. Assim, ao contrário do que diz um famoso poeta popular brasileiro: Não “deixe a vida lhe levar.” Responsabilize-se por ela, leve-a aonde você quer chegar, pois sem ela não nos desviaríamos de um pedregulho sequer que encontrássemos no nosso caminho.
Um dia vamos perceber que a vida é o caminho e que viver com fé e esperança é uma arte e, como todos os artistas, necessitamos de sabedoria para construir e expressar essa arte.
Como nos ensina Antonio Machado em seus “cantares”: tudo fica e tudo passa, mas nosso destino é passar, utilizando a fé e a esperança para construir processos resilientes em nossas vidas. Portanto, ante a certeza que tenho de que é impossível mover todas as pedras do meio do nosso caminho: “andá com fé eu vou que a fé não costuma faiá”.
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