Crítica: Aquarius
Novo longa de Kléber Mendonça Filho, é um encantador estudo de personagem sobre a força das mulheres, as memórias que nos cercam e a luta política entre as classes na sociedade contemporânea
O peso das memórias que nos cercam
Desde criança, sempre tive uma relação de fascínio com o espaço urbano. Andar na rua, geralmente acompanhado dos meus inseparáveis fones de ouvido, é um dos grandes prazeres que preenchem minha rotina. Observar os carros que passam, os prédios que se erguem e projetam sombras sobre as calçadas cheias, a pressa das pessoas, os olhares entrecruzados, as lembranças que estalam quando passo por algum determinado lugar. Em um mundo cada vez mais verticalizado, com sua profusão de torres definindo o horizonte em um limite acima do qual a minha vista alcança, sinto falta da arquitetura nostálgica das casas à frente das ruas de paralelepípedo.
O neurocientista e nobel da medicina Eric Kandel definiu certa vez que “Nós somos o que somos por causa do que nós aprendemos e do que nos lembramos”, e esse, é o grande ponto central na história de Clara, vivida por Sônia Braga e protagonista de Aquarius, filme de Kléber Mendonça Filho que estreou na última quinta-feira (1). Clara é a última residente do Edifício Aquarius e o último bastião da tradição perante o progresso. Com quase todos seus apartamentos comprados por uma construtora civil, o Edifício Aquarius, com seus poucos andares e sua fachada ampla e simples, é um corpo estranho em meio ao modelo de torres e complexos residenciais, cada vez mais abundante no espaço urbano.
O peso de envelhecer

Durante toda a projeção, o diretor Kléber Mendonça Filho, do excelente O Som ao Redor, explora a presença e a subjetividade dessas memórias no espaço do apartamento ao qual Clara devotou toda uma vida. Já no belíssimo prólogo, acompanhamos uma festa de aniversário de alguém que perdida em meio as lembranças, direciona olhares ternos em direção a uma cômoda, que deixa de ser apenas uma cômoda para se tornar em um conceito apresentado mais a frente no filme, uma mensagem na garrafa, um pedaço de uma história particular.
Enquanto é parabenizada pelas crianças da família, Tia Lúcia revive as lembranças dos orgasmos obtidos entre aquelas paredes e sob aquela cômoda, que ao fim é um lembrete, e que infelizmente o roteiro faz questão de mastigar para o espectador, da liberação sexual da mulheres que a carregam. Em meio a isso, descobrimos que uma jovem Clara (Bárbara Colen) se recuperou de um câncer e resiste de maneira estoica ao lado do companheiro e de deus três filhos. É tempo de celebrar. Todos dançam ao som de Toda Menina Baiana de Gilberto Gil e em uma das transições mais elegantes do cinema nos últimos tempos, o espaço se reconfigura, a noite se torna manhã e avançamos 35 anos no futuro.
É a partir daí então, que Aquarius determina o escopo de sua protagonista. Aos poucos a Clara, já vivida por Sônia Braga, vai se configurando pela sua relação com o espaço que a rodeia. Para Clara, sua história não foi determinada por ela e sim pelo meio em que ela habita e pela sua relação com o que a cerca. Clara não repele o progresso. Como ela mesmo diz ao ser entrevistada para um jornal, e que acaba sendo descaracterizada pelo famigerado título ‘chama clique’, tão em voga nos meios de informação digitais, ela gosta de mp3. Mas a digitalização e expansão de novas mídias retira aquilo que lhe é mais precioso e que permeia toda sua trajetória. O apelo nostálgico e as memórias que ele carrega com si.
Memórias essas que estão impressas tanto no espaço, quanto no corpo de Clara. E se a protagonista é um exemplo de mulher forte e independente, é esmagada pelo peso da sua fragilidade perante sua própria nudez. A cicatriz de uma mastectomia, é apresentada ao início do filme e revela a resignação de uma mulher perante a feminilidade que lhe foi arrancada. Durante a projeção, em dois encontros fortuitos, essa fragilidade é exposta à dois homens, em situações opostas e a forma como elas se desenrolam, é sintomática ao explanar de forma prática, caminho esse que o roteiro sempre segue ao invés de se escorar no campo teórico, a exigência, e por consequência o julgamento, que a sociedade imputa aos corpos femininos
O peso do que deixamos para trás (e do que recusamos a deixar)
E o foco narrativo do filme transita sempre em torno dessas mulheres. Em uma decisão hábil do seu roteiro, todos os homens a entrar no espaço do apartamento 7 do edf. Aquarius, são autorizados a entrar pelas mulheres que ali habitam ou evocados pelas memorias que elas carregam. Desde as lembranças tórridas de Dona Lúcia, ao garoto de programa que Clara chama e decreta com firmeza “Eu quero que você me coma e depois vá embora”.
Em outro momento, rusgas familiares são trazidas a tona e demarcam o espaço de outro elemento importante na narrativa. O peso da ausência. A ausência da mãe na infância, que rende um dos momentos mais cândidos do filme ao revelar um pedido de desculpas em um dos livros escritos por Clara. A ausência do pai, que antes de ser pai havia sido companheiro e o todo que isso suscita. A ausência do filho, morto em um acidente que escancara o conflito social vigente no microcosmo recifense, que por extensão representa a tônica das grandes metrópoles nacionais
Para Clara então, resistir as investidas da construtora e do jovem engenheiro Diego (Humberto Carrão), pode até ser um ato egoísta, visto a quantidade de pessoas que necessitam de uma resolução breve por parte da mesma, mas é antes de tudo, um ato de alguém que se recusa a abrir mão do todo que guiou sua trajetória até ali. Isso porque, dentro do seu cerne narrativo, Aquarius é uma representação de uma luta política em um espaço civil. Um embate situado dentro da alienante metrópole onde prédios, cada vez mais espelhados, se impõem frente as favelas e que em determinado momento do 3º ato, é exemplificado por Clara para a carioca Júlia (Julia Berna), através de um esgoto que traça a linha, não tão imaginária assim, que divide os ricos e os pobres. Onde jovens negros são olhados com desconfiança ao se aproximarem de um grupo em que as sonoras gargalhadas transitam do bem estar, para o nervosismo. Onde a inescrupulosidade capitalista, oprime a vontade particular se ancorando na política do medo e insegurança e onde as ligações escusas permitem tudo isso.
Mas no centro de tudo isso, está Clara, em uma performance brilhante de Sônia Braga, dona de força imperturbável e um exemplo irremediável do peso da memória que nos cercam e da importância de manter sua identidade em um mundo cada vez mais descaracterizado. É naturalismo em essência. Para Clara, o Novo Aquarius, nome do projeto dado pela construtora, nunca terá a humanidade e a vida que lhes causaram as marcas que a acompanharão pelo tempo que lhe restar.
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