Indústria baiana cresce, mas enfrenta ameaças externas e desafios estruturais
bahia.ba conversou com especialistas do mercado para entender cenário atual e perspectivas para o futuro

Guerras econômicas, juros elevados e conflitos armados ao redor do mundo têm pressionado diversos setores produtivos, inclusive o industrial. No Brasil, as dificuldades se agravam em estados das regiões Norte e Nordeste, onde os gargalos de infraestrutura, especialmente na logística, tornam o ambiente de negócios ainda mais desafiador. Na Bahia, apesar de um desempenho acima da média nacional, o setor industrial convive com obstáculos internos e impactos externos crescentes.
Segundo projeções da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a indústria brasileira deve crescer 2% em 2025, ritmo inferior aos 3,1% registrados em 2024. A queda é atribuída à desaceleração da demanda, ao ambiente econômico restritivo e à alta taxa de juros, que desestimula o consumo e os investimentos. Ainda assim, o setor de transformação, que converte matérias-primas em bens finais, puxou os resultados do ano passado, impulsionado pelo crescimento do emprego e da renda.
Na Bahia, o desempenho industrial tem superado a média do país. O superintendente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Vladson Menezes, aponta que o estado criou 4,2% mais vagas formais na indústria entre janeiro e maio de 2025. Os setores de transformação e engenharia civil foram os principais responsáveis pelo avanço, com crescimento de 3,6% e 5,9%, respectivamente. No entanto, o maior destaque foi o setor de refino de petróleo e biocombustíveis, com alta de 12% na produção acumulada até abril, impulsionado por novos projetos em fase inicial.
Outros segmentos também contribuíram, como a metalurgia, celulose e papel. Ainda assim, Menezes alerta para a necessidade de cautela nos próximos meses, diante da tendência de desaceleração econômica nacional. “A economia baiana tem mostrado resiliência, mas não está imune aos efeitos da política monetária e da queda na demanda”, afirma ao bahia.ba.
Concorrência externa ameaça indústria local
Para o economista e vice-presidente do Corecon-BA, Edval Landulfo, o cenário baiano combina desafios estruturais, como deficiências logísticas e alta carga tributária, com fatores conjunturais que afetam o país como um todo. “Temos uma taxa de juros obscena, entre as mais altas do mundo, o que agrava ainda mais o aperto monetário e prejudica a recuperação econômica”, conta.
Além disso, Landulfo destaca os impactos da desaceleração econômica da China, principal parceira comercial da Bahia, e dos conflitos internacionais, como a guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, que afetam diretamente a produção e o preço do petróleo, com reflexos em toda a cadeia industrial baiana.
Menezes chama atenção ainda para a invasão de produtos importados, especialmente da indústria química. “Estamos enfrentando uma concorrência desleal com a entrada de polietileno dos EUA, cuja produção baseada em gás de xisto é mais barata do que a nossa, feita com Nafta. Isso tem elevado as importações e reduzido o espaço para a produção local”, explica ao bahia.ba.
Polo químico é ativo estratégico, mas opera com ociosidade

Mesmo sendo a quarta maior indústria química do mundo, com faturamento líquido de US$ 158,6 bilhões em 2024, o Brasil enfrenta sérias dificuldades no setor. Segundo André Passos Cordeiro, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), 62% da capacidade instalada do setor está ociosa, o pior índice em 30 anos. A Bahia, com o Polo Petroquímico de Camaçari, tem papel de destaque nacional, mas também sente os efeitos dessa crise. Em 2023, a produção química no estado caiu 10,3% em relação ao ano anterior.
“O setor sofre com energia cara, falta de matéria-prima a preços competitivos e importações predatórias. Em 2024, o Brasil acumulou um déficit de US$ 48,7 bilhões na balança comercial de produtos químicos”, ressalta Cordeiro.
Esperança em novos projetos e incentivos
Apesar das dificuldades, as perspectivas são otimistas. Para o presidente-executivo da Abiquim, a aprovação do Projeto de Lei 892/2025, que cria o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq), pode mudar o jogo. “A proposta, alinhada ao programa Nova Indústria Brasil, prevê incentivos fiscais para estimular processos de baixo carbono e ampliar a capacidade produtiva. A expectativa é que o Presiq gere impacto de R$ 112,1 bilhões no PIB até 2029, crie até 1,7 milhão de empregos e aumente a arrecadação em R$ 65,5 bilhões. A meta ambiental é ambiciosa: reduzir em 30% as emissões de CO2 por tonelada produzida e atingir a neutralidade de carbono até 2050”, afirma.
Na Bahia, a chegada da montadora chinesa BYD em Camaçari é outro fator que pode impulsionar o setor industrial, principalmente o automotivo. “Com a instalação da fábrica, há grande expectativa de geração de empregos e estímulo para áreas correlatas, como borracha, plástico, petroquímica e informática”, aponta, ainda, o superintendente da Fieb.
A Fieb também aposta na qualificação de mão de obra para manter a competitividade. Com atuação de instituições como o Senai, Sesi, Cimatec e IEL, a federação tem promovido formação técnica, superior, pesquisa e desenvolvimento, além de capacitação profissional em larga escala.
Já para o economista Edval Landulfo, o futuro da indústria baiana passa por três frentes principais: inovação tecnológica, infraestrutura logística e qualificação profissional. “Precisamos de investimentos portuários, ferroviários, e de uma política robusta de educação técnica e superior. É necessário fortalecer, ainda, a capacitação da mão de obra, através de programas de qualificação e requalificação profissional. Com uma boa educação, você gera inovação e competitividade. Por fim, é preciso criar incentivos e linhas de crédito atrativas para as empresas que desejam expandir ou modernizar suas operações”, conclui.
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