Corrupção, o câncer que castiga o Brasil. Tem cura?
Levi Vasconcelos comenta prisões de Delcídio do Amaral e André Esteves

Notícia também tem hierarquia, sabia?
A maior, a mais impactante, se sobrepõe a outra também importante pelo que gera de interesse público (para o bem ou para o mal), mas de menor quilate.
E no mundo da ladroagem desenfreada, eis que surgiu o caso típico: Delcídio Amaral (PT-MS), senador da República em pleno exercício do mandato, é preso por ordem do STF e o Senado carimba a decisão. Quem ganhou? Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o presidente da Câmara dos Deputados, que está melado na Lava Jato até o pescoço e viu surgir um fato que tirou o foco dele.
Ainda no caso Delcídio, a prisão do banqueiro José Esteves também é de bom quilate. Um dos homens mais ricos do Brasil, com larga tradição de irrigar os saldos bancários de políticos malfeitores e seus asseclas, na cadeia.
Aí entra outra questão. Nestes tempos de escancaramento da corrupção em larga escala, convém perguntar: sempre foi assim ou foi a era petista quem criou esta situação de escala estratosférica, como quer nos fazer crer a oposição?
As duas coisas. No Brasil, sempre se roubou, de cabo a rabo, dos mais altos escalões até aos governantes dos mais longínquos municípios. Com o detalhe: a impunidade dos ladrões, em alguns casos tão visíveis quanto a luz do sol, chegou a criar a sensação de que o crime compensa.
A Lava Jato trouxe isso de bom. Cria-se uma nova sensação, a de que o pau que dá em Chico dá em Francisco. E a prisão do senador Delcídio Amaral (PT-MS), em pleno exercício do mandato, junto com o banqueiro André Esteves, robustece a tese. Oxalá que assim seja daqui por diante.
Novos Tempos? – Quando digo que as duas coisas têm tudo a ver é por uma razão simples. Para quem já tem dinheiro, é muito mais fácil escamotear o produto do roubo de que quem não tem. E o Brasil, até o PT chegar ao poder, sempre foi governado pela elite endinheirada.
A roubalheira é sistêmica. Faz parte da nossa tradição. E o PT emerge nesse cenário prestando um serviço pela contramão do que pregava.
Quando era oposição o PT combatia tudo isso. Até parecia que encarnava a pureza do planeta no mister de dedurar corruptos de todos os costados.
Uma vez no poder, ao invés de propor políticas que virassem o jogo, entrou de sola no esquemão. E por ser um partido de base sindicalista, o resultado da meleira apareceu primeiro com o mensalão e agora numa escala maior com a Lava Jato.
O serviço pela contramão é esse, o de desnudar a corrupção. Ainda na Lava Jato, nossos opositores provaram que são tais e quais no episódio de Eduardo Cunha. Enquanto ele servia como expectativa de encaminhar o impeachment de Dilma passaram a mão na cabeça. Quando viram que por aí não dava, retomaram o discurso da moralidade. Só cola para os trouxas.
Oxalá tudo isso sirva para a construção de um Brasil mais respeitoso consigo próprio. Já temos um ganho adicional: o escândalo serve para robustecer a solidez de instituições como o Ministério Público, a polícia e a Justiça. Mas ainda estamos muito longe do que se pretende.
A questão é moral. E ainda temos a cultura da imoralidade.
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