Palavras ao vento
Com a linguagem perdendo a função “denotativa”, todos os discursos em prol da democracia são transformados em um amontoado de palavras
Hoje pela manhã, durante o trajeto entre a nossa casa e o local onde minha mulher participaria de mais uma aula do curso de especialização que está realizando, ouvindo juntos, na voz rascante de Cássia Eller, a canção “Palavras ao Vento” de autoria de Marisa Monte e Moraes Moreira, trocamos algumas impressões a respeito dos sentimentos evocados pelos versos da canção e bastaram alguns minutos de conversa sobre a curta e intensa vida da artista, para concluirmos que na difícil arte do viver e conviver, antes de qualquer coisa, precisamos compreender que tolerar é, essencialmente, reconhecer a liberdade de existir do outro, desse outro ser diferente na maneira de agir, se relacionar, pensar, crer e amar.
Em meio ao diálogo, me flagrei pensando o quanto o comportamento polêmico da cantora carioca que costumava mostrar os seios no palco, explorado à exaustão pela imprensa em seus aparentes paradoxos, deve ter suscitado manifestações de intolerância, pois, tenho consciência do quanto somos capazes de sermos tolerantes ou intolerantes com o outro, a partir das semelhanças e diferenças com que exercitamos a liberdade incondicional de ser.
Nesse sentido, como as palavras são expressões da realidade humana, de suas contradições e de sua beleza, fiquei a refletir sobre o quanto a palavra tolerância e, principalmente, seu oposto, a intolerância, neste clima de nós contra eles que estamos vivenciando no nosso país, refletem claramente uma radicalização incomum na história política brasileira.
Do lado a lado, há acusações de intolerância e de incitação à violência, com a mídia se encarregado de noticiar a prática de atos que, além de contrariar os limites do bom senso e do respeito exigidos pela vida em sociedade, fogem a qualquer reflexão ou racionalidade que possam explicá-los, salvo pela estratégia de acirramento de ânimos adotada pelo PT e pelo historicamente baixo engajamento político do povo brasileiro.
Nessa lógica, há quem defenda e ache até mesmo normal o fato de uma médica se negar a continuar prestando atendimento a alguém que não compartilha da mesma opinião política ou um professor ameaçar de perseguição e morte seus ex-alunos e familiares, utilizando as redes sociais, quando a revolução do proletariado eclodir, simplesmente porque estaria sendo contestado e criticado por seus posicionamentos políticos.
‘Uma democracia deve ou não
impor limites de tolerância?…’
Divididos e perdidos em nossas pretensões de sermos donos da verdade, ou melhor, das certezas, estamos sendo intolerantes em aceitar outros posicionamentos, nos fechando à visão e à escuta de tudo que se apresente diferente ou incompreensível aos nossos valores e interesses, a ponto de não reconhecermos o outro como nosso semelhante, passando a odiá-lo a partir das diferenças que apontamos nele, mesmo que estas se resumam apenas ao fato de trajar-se de vermelho ou de verde e amarelo. Afinal, “Narciso acha feio o que não é espelho”.
Queiramos ou não, é forçoso reconhecer que do mesmo modo que são democráticas as manifestações populares em defesa do impeachment de Dilma Rousseff, também são democráticas as manifestações populares contra a forma como é conduzido o seu processo de cassação, apesar de o Supremo Tribunal Federal já tê-lo regulamentado.
No atual conflito político brasileiro, o caótico ameaça nos devorar em enigmas, por isso, sem perspectivas de um alívio na crise ou mesmo na polarização que se acirra, lembrei-me de Slavoj Zizek que, ao analisar o paradoxo da tolerância em um regime democrático, pergunta: “Uma democracia deve ou não impor limites de tolerância tendo em vista a ânsia dos intolerantes pelo poder?”.
Em busca de respostas para o questionamento do filósofo esloveno, cabe às autoridades brasileiras adotar todas as medidas necessárias para garantir que as batalhas pelo poder ocorram apenas nos campos político e jurídico, preservando a instrumentalidade dos conflitos à ordem em todas as manifestações favoráveis e contrárias ao governo, antes, durante e depois do processo de impeachment, qualquer que seja o seu resultado, obviamente, defendendo o Estado, a democracia e o direito.
É isso ou corremos o risco de sofrer um grande retrocesso, com os conflitos voltando a ser vistos como antagônicos à ordem, por não termos conseguido evitar o descolamento entre a primazia teórica das liberdades básicas e a realidade, pois, com a linguagem perdendo a função “denotativa”, todos os discursos em prol da democracia são, simplesmente, transformados em um amontoado de “Palavras apenas / Palavras ao vento”, como nos versos da canção de Moraes Moreira e Marisa Monte imortalizada na voz de Cássia Eller.
Antonio Jorge Ferreira Melo é coronel da reserva da PMBA, professor e coordenador do Curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia e docente da Academia de Polícia Militar.
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