Trá-trá-trá-trá-trá: Salvador abre 2016 com 117 homicídios
Mortes violentas em janeiro na capital baiana superam mesmo mês do ano passado; média é de quase quatro por dia

O ano é novo, mas a violência em Salvador, velha conhecida dos soteropolitanos, continua em alta: em janeiro, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública da Bahia, foram registrados 117 homicídios na capital. No ano passado, no mesmo período, o total de casos ficou em 116. Ou seja: são quase quatro mortes violentas por dia, números que confirmam o que o governo insiste em refutar: a posição de Salvador no ranking das cidades mais violentas do mundo, como aponta recente levantamento de uma ONG mexicana, publicado dias atrás e execrado pelas autoridades de segurança pública do Estado.
E o perfil das vítimas permanece inalterado: a maioria é do sexo masculino, negra ou parda, e tem entre 19 e 25 anos. Ou seja, são pobres, negros e, quase sempre, egressos de lares desfeitos ou nunca constituídos. O recorte, aliás, tem servido como moldura à recém-inaugurada oratória do governador Rui Costa, sobre a suposta “coincidência” entre pobreza e violência: “Não é a pobreza que leva ao crime. A exclusão, a falta de amor e carinho e a falta de esperança é que levam um jovem ao crime. (…)”.
O discurso oficial não é de todo desprovido de lógica. Nascer pobre não é condição sine qua non para o ingresso na criminalidade. Mas não é só com amor que se constrói um futuro sólido. Um menino pode ter todo o afeto do mundo, mas precisa também de atendimento em saúde e educação, uma moradia digna, uma roupinha decente e um dinheirinho pra uma balada de vez em quando. Senão, pode, sim, terminar seduzido pelo traficante que lhe oferece correntões de ouro, dinheiro sempre no bolso e a atenção das garotas…
Bairros sem infraestrutura – Ou seria uma simples coincidência a constatação de que nos bairros menos providos de serviços essenciais a morte faz morada? Para citar apenas alguns casos, dos 117 homicídios verificados em Salvador em janeiro, 19 foram consumados em alguma rua mal iluminada e sem saneamento básico das muitas que se espalham pelo Subúrbio Ferroviário. Segundo dados da SSP-BA, os assassinatos na região estão assim distribuídos: Lobato (6), Paripe (6), Itacaranha (3), Escada (1), Praia Grade (1), Cabrito (1), Alto do Cabrito (1).
Fora da poligonal do Subúrbio, mas não tão distante geograficamente, os bairros de Valéria (6) e Massaranduba (5) também deram sua contribuição em sangue e lágrimas.
Os números são oficiais e incontestáveis. E englobam apenas casos tipificados como homicídios. Latrocínios, por exemplo, outro indicador de violência, não são contabilizados no quadro nem estão disponíveis no site da SSP-BA.
Não há sinais de que a violência em Salvador esteja em curva descendente. Até porque, embora apele para a paz e amor no discurso, o governo parece fazer vistas grossas a situações potencialmente geradoras de atos violentos. Para citar um exemplo, recentemente o Estado anunciou a lista de artistas que vai patrocinar neste carnaval. Entre eles, uma banda batizada de Vingadora e cuja “música de trabalho” leva o nome de “Paredão Metralhadora” e que no refrão reproduz uma rajada da arma letal. Assim, não há amor que resista. É tudo deles! De nosso mesmo, só a violência de cada dia: antes, durante e, seguramente, depois da folia.
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